O Alimento e a existência humana, ou O alimento da existência humana

Postado por KJ Nutricional em nov 24, 2011

Hoje nosso post é do psicólogo Vitor Sampaio colaborador da KJ NUTRCIONAL !

O Alimento e a existência humana,

ou

O alimento da existência humana.

Fala-se muito em nossos dias sobre a aparência, o bem-estar, e a saúde. Os três termos estão intimamente ligados no imaginário cotidiano, tendo, de fato, se transformado em sinônimos. Desta forma, só se tem saúde se se está “de bem com a vida” e com “boa aparência”. A magreza tornou-se a porta-voz do ser-saudável. Enquanto a obesidade a caracterização carnal dos defeitos humanos. A “boa aparência” tornou-se o Graal moderno buscado a qualquer custo – ao custo do próprio “alimentar-se”, este ato tão humano, sempre revestido de grandes significados. Esta perspectiva tem levado todos a excessos. Seja na magreza, seja na obesidade, seja nos sacrifícios feitos, seja nos sofrimentos sentidos por conta da aparência. O fato é que hoje o alimento que antes era amigo, tornou-se um inimigo a ser combatido; não se tem mais na comida uma relação de prazer, mas de ódio, terror ou até mesmo de vício. Mas será que a culpa está realmente nos alimentos? Quais as implicações desta mudança na relação alimentar, para a existência humana?

Alimentar e comer são termos que sempre estiveram ligados a um ato social. Seja nas famílias que se juntam na hora da refeição, ou nos amigos que saem juntos para jantar, a comida sempre esteve ligada ao compartilhamento. Comer é, por excelência, o compartilhar da existência humana. Alguém que cozinha, cozinha para outras pessoas. Todas sentam juntas, saboreiam juntas a mesma refeição. Comer junto significa compartilhar sua experiência imediata com outro ser-humano. Comer junto significa propriamente co-existir, co-habitar.

Co-habitar é por si só nutritivo. Obviamente a comida é nutritiva em seus importantes aspectos físico-químico-biológicos, mas o que há de mais nutritivo na comida é a possibilidade de se compartilhar o ato de comer, de se compartilhar essa nutrição biológica com outros, assim, co-existindo com os outros.

Este ato de compartilhamento ligado a refeição, o co-existir comendo, foi sistematicamente deixado de lado na atualidade. Seja por qualquer razão que seja, come-se sozinho, e comer sozinho não é nutritivo. Comer sozinho é sinônimo de comer rápido, de comer qualquer coisa, de comer o mais fácil e não o mais saboroso. Alias, não há espaço para os sabores ou os aromas quando se come sozinho; não há com quem compartilhar essa experiência da refeição.

Há que se fazer uma pausa neste momento. Comer sozinho, aqui, não significa estar em uma mesa de jantar sozinho. Pode estar junto aos outros, mesmo estando sem ninguém ao lado. Co-existir, co-habitar o mundo ao seu redor, mesmo sendo o único dentro de uma sala. Comer sozinho, aqui, fala exclusivamente do compartilhamento do ato de comer. Pode-se comer sozinho em uma grande mesa de jantar, cercado por toda a família. É que se come sozinho quando se tem pressa, por exemplo. Come-se sozinho quando aquele alimento que alimenta os outros, não é o mesmo que te alimenta. Come-se sozinho, quando não se consegue compartilhar o mundo do outro, o tempo do outro.

Entramos, agora, no problema inicial colocado. A busca pela aparência lança muitos a este mundo solitário, habitado apenas por si mesmo, um mundo próprio onde a comida muitas vezes ganha sinônimo de asco e tudo passa a ser proibitivo e por tanto, não compartilhado com os outros a sua volta. Ao mesmo tempo, não se pode esquecer o mundo tão próprio e tão solitário daqueles que convivem com a obesidade, onde o ato de comer reflete seu próprio tempo e significado, preenche seus próprios espaços, e ganha dimensões tão únicas que não se consegue comer a mesma quantidade, nem na mesma velocidade, nem com a mesma qualidade que os outros. Da mesma forma, na obesidade, come-se sozinho e de forma não compartilhada.

Comer ou alimentar-se, fala de um ato de compartilhamento e co-existência. Muitas vezes uma disfunção alimentar, sem desconsiderar a importância biológica, e as qualidades físico-químicas dos alimentos e seus níveis nutritivos, fala exatamente disso: uma disfunção alimentar, ou seja, uma dificuldade no como se alimenta que denuncia uma dificuldade no como se relaciona com o mundo a sua volta: co-existir.

Por essa razão, mudar hábitos alimentares não é uma mudança fácil, pois implica em rever e reavaliar muitos aspectos da própria existência antes ignorados. Mudar hábitos alimentares passa por avaliar o seu próprio convívio e relação com os outros. Nesse momento tão delicado, a Psicoterapia pode ajudar a suportar esse processo de revisitar-se, de reavaliar sua forma de habitar o mundo e estar com os outros, pode ajudar a uma retomada de um estar junto com os outros, compartilhar com os outros, de forma mais saudável e benéfica: seja criando novas possibilidades e significados para o comer e a comida, seja ajudando a olhar para esta comida com olhos diferentes daqueles que a viam como solução ou como destruição.

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Sobre KJ Nutricional Consultoria e Assessoria

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